Nacional
Salvador Sobral grato

«Teve de morrer uma pessoa para eu poder estar aqui, vivo»

Qui, 05/03/2020 - 17:40

Salvador Sobral recorda a fase mais complicada da sua vida. «Sou privilegiado porque já vi o outro lado, sei o que é estar a morrer», diz sobre o transplante que fez ao coração.

A vitória de Salvador Sobral no Festival Eurovisão da Canção, que se realizou em Kiev, na Ucrânia, em 2017, tornou-o mediático de um dia para o outro, com o tema Amar Pelos Dois. Literalmente «de um dia para o outro», tal como o próprio assume numa entrevista à revista Visão. Apesar de ter sido «uma boa experiência», o cantor confessa que também lhe provocou alguns danos.

«Fui para o aeroporto sozinho e quando regressei da Ucrânia tinha milhares e milhares de pessoas à minha espera! É contranatura, por isso é que eu bati mal…», recorda o irmão de Luísa Sobral, revelando que não lidou bem com a fama.

«Na altura, lembro-me de estar contra tudo, era bastante revolucionário. Como não estava bem de saúde, sentia-me muito ressabiado e tudo me fazia muita confusão. As pessoas invadiam imenso a minha privacidade, entravam-me pelo quarto de hotel adentro… E havia gente a dizer coisas horríveis, tipo “espero que ele morra”, cenas feias que o ser humano, às vezes, gosta de fazer. Nessa altura, foi bastante difícil», conta.

O transplante de coração

Devido a uma insuficiência cardíaca, Salvador Sobral foi submetido, em dezembro de 2017, a um transplante de coração pelo qual aguardou durante toda a sua participação no Festival da Canção e posteriormente no Festival Eurovisão da Canção. Na altura, houve três pedidos feitos pelo artista que se tornaram notícia, dadas as condições do cantor. Salvador terá perguntado se o médico «estava em boa forma», pediu para «ouvir música clássica» e desejou «boa sorte» ao profissional que o iria operar.

Agora, nesta entrevista, o músico confessa que não esquece tudo aquilo que aconteceu, considerando-se uma pessoa com «muita sorte».

«Como tomo medicamentos todos os dias, tenho mesmo de pensar. Tem corrido muito bem, mas há muitas coisas que tenho de fazer que não me deixam esquecer o que aconteceu. Tenho tido muita sorte… Não sou cuidadoso com nada, exceto com as horas dos medicamentos. Acho que é a única disciplina que tenho na vida, desde que descobri que tinha uma doença, aos 21 anos», afirma.

Na sua memória estará sempre presente a pessoa que lhe deu a possibilidade de estar vivo. «Tenho bem presente a gratidão que sinto; teve de morrer uma pessoa para eu poder estar aqui, vivo. Em honra a essa pessoa, tenho de estar ainda mais agradecido e viver com mais gratidão por estar vivo. Mas não penso nisso com solenidade; penso com frescura, como uma coisa leve. Só tenho de estar agradecido e ser feliz. Às vezes, digo que sou privilegiado porque já vi o outro lado, o lado escuro, sei o que é estar a morrer. Sei mais do que tu, sei mais sobre a vida, sou superior por isso. Mas, no fundo, se calhar isso é uma estupidez porque, de uma maneira simples, todos podemos e devemos aproveitar a vida.»

«Nunca vi uma final da Eurovisão»

Na mesma entrevista, Salvador Sobral confessa que não costuma acompanhar o universo do Festival da Canção nem da Eurovisão, apesar de ter sido o grande vencedor de 2017. «Acontece, exatamente, o que acontecia antes de eu participar no festival, que é não seguir. Não acompanho. Eu costumo dizer que nunca vi uma final da Eurovisão, porque mesmo a de 2017 não vi. Estava lá, o que é bem diferente. Quanto ao festival deste ano, como o [Tiago] Nacarato é meu amigo, ouvi a canção dele. Ouço as canções se forem de artistas de quem eu gosto», refere.

 

Texto: Filipa Rosa; Fotos: Impala

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