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Livre-se da tralha

Pode contribuir muito para o seu bem-estar físico e psicológico

Seg, 02/09/2019 - 10:30

É a expressão do momento e trata-se de uma forma de estar e de viver que pode contribuir muito para o seu bem-estar físico e psicológico. Para quê acumular o que não usa? Já parou para pensar no número de coisas que mantém guardadas, para as quais nem sequer olha há anos? Conselho: livre-se de tudo o que não lhe faz falta

As rotinas do dia-a-dia não deixam, muitas vezes, tempo para se parar, pensar e cuidar dos espaços que nos rodeiam. Não são raras as vezes em que, quando nos apercebemos, temos a nossa casa, o local onde vivemos, virado “de pernas para o ar”. Arruma-se aqui e ali, mas a sensação que dá é que a casa está sempre caótica e que nunca conseguimos ter tudo organizado e no sítio por muito tempo.

A verdade é que acabamos por nos habituar a viver numa espécie de caos organizado, numa desarrumação que nos permite (sobre)viver, mas sempre com a ideia de que poderíamos fazer e estar melhor. Mas como? A japonesa Marie Kondo encontrou a solução para muitos desses problemas, através da criação de um método infalível de (re)organização da casa, o Konmari. Do Japão para o Mundo, o que é certo é que há muito tempo que a organização e a arrumação do espaço onde vivemos é uma espécie de elixir essencial para o bem-estar, a felicidade e a tranquilidade.

Acumular artigos e “empilhá-los” por falta de espaço não é benéfico para ninguém e, acima de tudo, não é saudável. A psicóloga Sofia Moura acrescenta que este tipo de problema pode, inclusive, evoluir para um distúrbio mental grave: “Sim, acumular objetos pode tornar-se um distúrbio do comportamento. Quando um indivíduo acumula artigos a um ponto em que deixa de ser possível usufruir dos espaços para o fim a que se destinam, ou até mesmo quando os mesmos se tornam perigosos e/ou imundos, aí estamos a falar de um distúrbio do comportamento com o nome de disposofobia. Acresce o facto de as pessoas apresentarem uma incapacidade em se descartarem dos objetos, apresentando um quadro ansioso, de angústia e remorso.”

«O meio exterior pode contribuir para a nossa desorganização interna»

O ambiente envolvente influi totalmente no nosso comportamento e na forma como vivemos e lidamos com as situações do dia-a-dia. Quanto mais organizada e limpa estiver a envolvência em que vivemos, melhor será o desempenho da nossa mente face ao Mundo que nos rodeia. “O meio exterior pode contribuir para a nossa desorganização interna. Ou seja, uma casa desarrumada pode ter impacto na nossa organização interna e emocional. Quando estamos mais desorganizados/confusos a nível emocional, tipicamente os nossos espaços também refletem isso. Uma casa ‘muito cheia’ pode significar excesso de carga emocional e revelar que existem muitas emoções bloqueadas na vida da pessoa, podendo, naturalmente, ter um grande peso ao nível da saúde mental“, diz Sofia Moura.

Na realidade, todos os métodos conhecidos para a organização e arrumação dos espaços têm como ponto de partida o desapego, o “destralhar” e o livrar-se de artigos que já não fazem falta. O ato de “destralhar” é, por si só, uma terapia que pode, em muito, beneficiar a saúde mental. “Abdicar dos excessos pode constituir uma forma de nos reprogramarmos mentalmente. Pressupõe a criação de novas
possibilidades, de novos pensamentos e crenças sobre mim e sobre a vida. Remeto a minha consciência para o presente e para aquilo de que realisticamente preciso (ou não) de ter na minha vida, e não
para aquilo que hipoteticamente posso vir a precisar no futuro. O indivíduo capacita-se de que é suficiente, que não necessita de recorrer a objetos externos para que os mesmos lhe tragam segurança e conforto. Acredita que é capaz de criar e de se adaptar a novas possibilidades e realidades, tendo o poder de ‘ir caçar’ o que precisa no momento em que a necessidade se tornar real. Esta é uma forma de nos potenciarmos enquanto criadores da nossa própria realidade”, resume Sofia Moura.

 «O modo de vida minimalista acaba por ser mais simples e saudável»

O desapego nem sempre se refere a objetos físicos. Ou melhor, ao nível emocional, o desapego acaba por ser uma “terapia” muito importante, garante Sofia Moura: “Ao limpar as tralhas, estamos a alterar a nossa forma de pensar. Estes pensamentos criam novas crenças e novas formas de ver o Mundo. Libertarmo-nos da carga emocional contida em todo um conjunto de objetos físicos, mas também do ‘peso emocional’ neles contido. Destralhar o nosso espaço implica uma ação no presente, que nos permite olhar para fora e para dentro, sentir e dar uma nova ordem e sentido às nossas tralhas e emoções, reforçando, assim, o nosso ‘superpoder’ de criar novas realidades, de criar um novo espaço interno e externo. Libertarmo-nos do ‘velho’ significa ter criado espaço para o novo, para o futuro.”

No dia em que um indivíduo opta por destralhar a sua casa e seguir um qualquer método de organização, acaba também por caminhar na direção de uma nova filosofia de vida. Há quem acredite que a decoração minimalista poderá ajudar a manter a organização. Contudo, mais do que optar por cenários minimalistas, o importante é adotar esse princípio como filosofia a aplicá-lo em muitas áreas da vida e não só na decoração. “O modo de vida minimalista acaba por ser mais simples e saudável, na medida em que pressupõe que o indivíduo possui uma autoestima mais positiva, sentindo-se ele próprio
suficiente, sem precisar de tralha para se sentir confortável e seguro, sendo capaz de adquirir o que precisa no momento, usando os recursos que a vida lhe oferece, sem ter necessariamente de os possuir. Viver com pouco promove a partilha, a criatividade, a proatividade e a capacidade de adaptação dos indivíduos. Escusado será falar do ponto de vista ecológico... esta é uma forma de contrariar o consumismo e a crença de que precisamos de tralha para sermos felizes, o que não é verdade. Essa emoção pode/ deve ser criada por nós, internamente, com a devida programação. Não é possível encontrá-la nas “coisas”, pois dura pouco e atafulha-nos a vida”, defende a psicóloga.

Quando se toma a decisão de organizar a vida, a casa, os armários e as gavetas, há que pensar na logística e no tempo que essa reviravolta pode implicar. Por exemplo, é importante definir qual o destino
que vai dar às coisas de que vai livrar-se. Se umas estão velhas e apenas em estado de irem diretamente para o contentor do lixo, há artigos que estão novos e que deixaram de lhe servir, mas que podem servir a outra pessoa. Assim sendo, antes de meter mãos à obra, pesquise os locais e instituições a quem pode doar as coisas. Depois, quando organizar totalmente a sua casa, defina algumas regras que poderão ajudar a manter a organização do espaço. Por exemplo, há quem estabeleça que cada novo artigo que entra em casa faz com que saia, obrigatoriamente, outro. Deste modo, evita a acumulação do desnecessário. O velho dá lugar ao novo, o novo ocupa o lugar do velho, que vai embora.

Quem é Marie Kondo?

O método Marie Kondo foi criado pela japonesa com esse nome, uma personal organizer que, desde criança, é apaixonada pela organização. A estratégia que defende é uma solução definitiva que permite a qualquer pessoa livrar-se da tralha e da confusão de uma vez por todas. Marie Kondo já escreveu quatro livros e vendeu milhões de cópias em todo o Mundo. A organizadora diz que a maioria das pessoas acredita que organizar é uma questão de prática e que não há necessidade de estudar o assunto. Mas não é bem assim. Muitos têm dificuldade em manter as coisas arrumadas, pois, na verdade, nunca aprenderam, de facto, a organizar. Dos livros, Marie Kondo rapidamente passou a professar o seu método numa plataforma de streaming, com uma série de programas dividida em oito episódios, onde visita casas de famílias comuns e aplica os seus ensinamentos. Marie Kondo assume que sempre viveu obcecada por arrumação e que tinha como grande objetivo deitar fora coisas inúteis, até que, um dia, desmaiou.

«Estava obcecada com o que poderia deitar fora. Um dia, tive um colapso nervoso e desmaiei. Fiquei inconsciente por duas horas. Quando estava a voltar a mim, ouvi uma voz, como um deus da arrumação, dizendo para olhar para as minhas coisas mais de perto. Percebi qual era o meu erro: só procurava coisas para deitar fora, enquanto deveria tentar encontrar as coisas que quero manter. Identificar as coisas que nos fazem feliz: esse é o trabalho de arrumar.»

Texto: Lídia Belourico; Fotos: redes sociais

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