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Crónica de Francisco Guerreiro

Shiuuuuu!!!!

Qua, 14/09/2022 - 09:49

No outro dia viajava de avião com a minha família, porque era impossível deslocarmo-nos de outra forma, quando sucedeu algo inesperado. Um “shiuuu!!” emanou do banco da frente devido ao barulho que a nossa filha mais nova, a Emma, estava a fazer

No outro dia viajava de avião com a minha família, porque era impossível deslocarmo-nos de outra forma, quando sucedeu algo inesperado. Um “shiuuu!!” emanou do banco da frente devido ao barulho que a nossa filha mais nova, a Emma, estava a fazer. Considero que é compreensível que num voo haja pessoas cansadas. É também compreensível que se manifeste o desagrado pelo comportamento bastante audível da Emma, porque ela é mesmo muito energética (pese embora o voo ser antes do jantar). 

Mas estranhei este comportamento pela falta de sensibilidade da pessoa que em vez de se virar e pedir respeitosamente que, se conseguíssemos, a Emma fizesse menos barulho, fez o contrário. A sua acção foi de uma intolerância egocêntrica fulgurante. Isto porque depois de ouvirmos o “Shiuuu”, questionámos qual a solução que propunha. O mesmo sem nunca olhar para trás, e de auriculares nos ouvidos, respondeu “Não me estou a queixar da criança mas do comportamento dos pais”. Voltámos a questionar então como desejaria que agíssemos: “Batendo na criança? Amordaçando-a?” 

Ficámos sem resposta. Curiosamente ao nosso lado, na outra ala, estava um casal de Barcelos que vinha de uma lua de mel de celebração dos seus 40 anos de casados. Muito gentilmente disseram que também tinham um neto muito energético. Foi um gosto conversar com este casal que no meio do diálogo se ia metendo com a Emma de modo a ela se entreter. 

No final do voo, quando aterrámos, questionei o senhor “Shiu” se desejava agora falar sobre o sucedido e este, mais uma vez de auriculares, pouco acrescentou. Balbuciou algumas palavras que não compreendi e saiu a correr do avião. 

Foi um episódio que demonstrou algum do sentimento que vai imperando numa sociedade dessensibilizada e alheia ao espírito comunitário que envolve criar uma criança. A paciência, o carinho e a cordialidade entre pessoas e famílias é fundamental para reforçarmos os laços sociais e não andarmos, cegamente, a anular tudo o que nos “incomoda” na vida.

Crónica de Francisco Guerreiro

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