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Crónica de Carlos Leitão

Gratidão, tipo, incrível

Qui, 24/09/2020 - 08:00

Segundo as linhagens das modas sociais, uma incomensurável percentagem de portugueses desatou a ver “A” luz e nasceu o hashtag #gratidão, que está, para o mundo, como base de agradecimento para tudo.

Nas trindades mais populares entre portugueses justifica-se tudo e nada. Se a “santíssima” é moralmente intocável, sob pena de nos mostrarmos ao purgatório, já a cantada por Lucília do Carmo em tempos idos, “Guitarras, mulheres e vinho”, ainda que tentadora, tem perdido espaço e tempo (ou não) num Portugal cosmopolita e atento às tendências e novidades “lá de fora”. São, assim, inquietantes os laivos pós-modernos mais ou menos patéticos de um país de tremoceiros onde ainda se cospem pevides e aplaudem malabarismos circenses com palitos entre lábios.

Segundo as linhagens das modas sociais, uma incomensurável percentagem de portugueses desatou a ver “A” luz e nasceu o hashtag #gratidão, que está, para o mundo, como base de agradecimento para tudo: sol, chuva, o que o universo nos dá, o chinelo que apareceu ou um abacate maduro, entre tantas outras valências. Se à enternecedora conotação espiritual dos “gratos” juntarmos o emoji das mãozinhas a agradecer, então o #gratidão é levado aos píncaros, numa benévola comoção de bondade e altruísmo. Ámen!

E depois há o “tipo”, palavra que me arrepia as carnes e o sonho de uma língua portuguesa para os séculos vindouros. Cabe em qualquer vernáculo, num mantra que infecta todas as faixas etárias, uma espécie de corona, menos mortal, mas não menos agressivo, “tipo como quem, tipo, quer dizer coisas, tipo, mas não sabe, tipo, como há-de fazer”. Apre!

A trindade do Portugal pós-moderno completa-se com o inexorável “incrível” que tanto serve para classificar um hambúrguer, como a melhor pessoa do mundo. Irrita-me, confesso, que todos os adjectivos do género estejam moribundos, e nem o “supimpa” ou o “tótil” tenham espaço por cá. Hoje, tudo é, tipo, incrível e a malta é, tipo, in, e tem coisas incríveis para dizer e para fazer. O desmame desta perniciosa trindade é possível, e acredito veementemente que Portugal (ou, pelo menos, eu) ficaria mais feliz.

#gratidão.

Texto: Carlos Leitão
Fadista
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