Nacional
Carlos Areia

«Pões uma cabeleira fazes de avô e, mais um bocadinho, pões uma saia travada e fazes de tia»

Ter, 05/12/2017 - 12:56

O ator confessa sentir-se desiludido por viver ainda num mundo do «faz de conta», onde a idade já lhe trouxe dissabores profissionais

Carlos Areia foi desde sempre um ator acarinhado pelo público. talvez pela ingenuidade que ainda admite ter… No teatro ou na ficção nacional, a sua veia humorística tem conquistado plateias há mais de 50 anos.

Mas, se na vida de artista se registam momentos felizes, outros tantos menos bons ficam por revelar. Cansado de viver essa realidade, Carlos Areia deu uma entrevista a Daniel Oliveira, no programa da SIC, Alta Definição, onde abriu o seu coração para as dificuldades financeiras e profissionais que atravessa.

Agora ao site da TV7Dias, Carlos Areia expressa a desilusão face à escassez de oportunidades profissionais que têm conduzido a sua vida à pobreza e confessa ter sido “colocado de lado” por colegas de profissão.

Por que sentiu necessidade de expôr a sua situação?

Eu senti necessidade não de expôr o meu caso mas de servir de exemplo. Alertar consciências. Isto passa-se com muitos colegas.

Eu quis dizer à sociedade em que vivo e trabalho como é que estou e por que é que estou assim. Mais eu disse, mas ainda bem que não foi para o ar.

Como por exemplo?

Tinha a ver com política em televisão e o Daniel achou por bem não editar aquilo porque ainda vivemos num país de «faz de conta». «Faz de conta» que está tudo bem, «faz de conta» que entedemos. O que fiz foi apontar o que acho que se passa a nível das estações [televisivas]. As escolhas dos elencos, a forma como o fazem, sem ter, por vezes, o cuidado com a qualidade do produto. Não interessa se o ator ou a atriz são bons, tem é que ser rentável. Como contratam aqueles atores têm de os pôr a trabalhar. Isso é mau e reflete-se no produto. Os elencos repetem-se e, a nível de público, até cria uma certa confusão.

Toda a gente vê isto menos os responsáveis. E, depois, não haver trabalho para pessoas de idade, que é aquilo que me faz confusão. Hoje pões um bigode fazes de pai, depois pões uma cabeleira fazes de avô e mais um bocadinho pões uma saia travada e fazes de tia. E eu, e muitos atores, estamos sem trabalhar porque, pronto, é uma política.

Alguma vez recebeu algum comentário menos positivo a nível profissional?

Por acaso uma vez ouvi um comentário de um colega. Não vou dizer quem, mas merecia que o dissesse. Ele depois ocupou uma posição de diretor de projeto, ou coisa assim, e um dia teve a lata de dizer: “não há papéis para atores de 60 anos”. Isto não cabe na cabeça de ninguém… Esse colega deve pensar que vai ficar eternamente jovem…

Como se sente perante tais comentários?

Triste por ainda existirem pessoas que pensam desta maneira.

Considera-se um artista completo?

Não, nunca. E quem o sentir está errado. Nós passamos a vida a aprender. Eu, hoje, com 73 anos continuo a aprender. Completo não, mas sinto que cumpri o meu dever enquanto trabalhei em televisão e teatro. Fiz tudo para cumprir com o meu dever profissional, isso tenho consciência que sim.

«As pessoas têm mais admiração por mim»

Como a Rosa Bela reagiu a toda esta polémica originada em torno da entrevista dada no programa da SIC?

Ela não reagiu mal porque, mais do que ninguém, conhece a realidade. Ela nunca foi da opinião de que eu me expusesse desta maneira, mas depois percebeu que tinha de haver uma altura em que tem que se dar o chamado «grito do Epiranga». Mesmo que isto não mexa com mais nada, mexeu com muitas consciências, foi muito bom.

Depois de revelada a sua realidade, como é que as pessoas passaram a abordá-lo?

As pessoas sempre me abordaram bem e trataram bem. A partir desse momento, melhor ainda. Têm admiração por mim. O grave é que não é só comigo, passa-se com muitos colegas meus e eu gostava que isto acabasse. Não sei quando isto se resolverá. Eu resolvo de qualquer maneira, basta que me dêem trabalho.

Já recebeu alguma proposta profissional?

Não, por acaso não. Aliás eu disse à Rosa: não vai mexer. As pessoas não ligam, não dão importância, não têm consciência. Eu sinto que há muita incompetência. Há uma grande dose de incompetência, é preciso dizê-lo. Há muitos incompetentes que não entendem nada daquilo [ficção nacional], não entendem nada de espetáculo, estão ali só a defender os seus postos de trabalho, os seus altos cargos e os seus altos ordenados e não olham para o lado nem para ninguém. Só olham para o umbigo deles. Esta é que é a verdade!

Continue a ler aqui.

Fotos: Impala e DR

As mais lidas do momento:

Georgina Rodríguez

Apresenta Alana Martina ao mundo em capa de revista
 

Caso real

Pais descobrem que filho está vivo a caminho do funeral

 

Atores da TVI

Protagonizam cenas de sexo escaldante

 

Meghan Markle

O que o príncipe Harry não quer que ninguém veja

Siga a Nova Gente no Instagram