Nacional
Bruno Nogueira

O texto censurado (e simplesmente emocionante) sobre a eutanásia

Sáb, 22/02/2020 - 13:04

Bruno Nogueira considerou a despenalização da eutanásia uma vitória da «liberdade de escolha» e escreveu um texto que foi aplaudido por centenas de pessoas e emocionou o País. Porém, parece que nem todos ficaram rendidos ao testemunho

Bruno Nogueira recorreu às redes sociais para partilhar um texto emotivo sobre a despenalização da eutanásia. Os cinco projetos de lei apresentados pelo PS, BE, PEV, PAN e Iniciativa Liberal, foram aprovados na Assembleia da República, esta quinta-feira, dia 20 de fevereiro, dando-se, agora, continuidade ao processo legislativo.

O humorista considerou ter sido a vitória da «liberdade de escolha» e escreveu um texto que foi aplaudido por centenas de pessoas e emocionou o País. Porém, parece que nem todos ficaram rendidos ao testemunho. O conteúdo acabou por ser denunciado e o Facebook eliminou a partilha. 

«Eliminámos o conteúdo que publicaste», lê-se numa mensagem partilhada por Bruno Nogueira no Instagram. «Recebemos uma denúncia de terceiros em como este conteúdo infringe os seus direitos», acrescenta a rede social. 

«Não há no texto um laivo incendiário ou insultuoso»

Feliz pela aprovação, mas revoltada pela censura, o humorista escreveu uma mensagem irónica: «Maravilhoso mundo livre». Foram dezenas os seguidores que sairam em defesa de Bruno e o também humorista Nuno Markl decidiu expressar a sua opinião. 

«O Bruno Nogueira escreveu no Facebook um texto decente, articulado, inteligente, dando a sua opinião sobre a lei da eutanásia. Não há no texto um laivo incendiário ou insultuoso - apenas uma opinião, bem escrita, até conciliadora, sobre a importância da liberdade de escolha. Aconteceu isto. Entretanto, posts xenófobos, violentos, insultuosos permanecem intocáveis - 'não achamos que vão contra os critérios e as regras etc etc', dizem eles. Um nojo absoluto», escreveu no Instagram. 

Leia o texto eliminado na íntegra:

«A lei que foi hoje aprovada na assembleia sobre a despenalização da eutanásia é um grito importante da liberdade individual de cada ser humano. Ainda falta muito caminho, mas a noite fez-se mais clara. Os que são a favor hão de poder, finalmente, tomar essa decisão, que só diz respeito a quem a toma, e os que são contra podem tomar a decisão de optar por um fim diferente para a vida, se assim o entenderem.

É uma lei bonita em que ninguém sai a perder, e é isso que custa a entender nos adeptos fervorosos do não: a incapacidade de perceberem que o melhor para eles não serve toda a gente. Que a vitória do sim não os obriga a escolherem a eutanásia como solução final. Que a ideia de corpo decomposto e em dor física ou psicológica até um final divino é uma ideia que pode servir uns e revoltar outros. Que sofram os que querem esse caminho (não há julgamentos morais), e que partam com hora marcada os que querem dar por findo o capítulo.

Cuidar da vida é também deixá-la quando ela nos trai. Negar a morte a alguém não pode ser assunto de quem vive com o corpo todo. Hoje ganhou a liberdade de escolha, para o sim e para o não. 
Será que uma vida só termina quando o coração se demite das suas funções? Um dia também eu terei essa pergunta por perto. E felizmente, se tudo correr bem, poderei ser eu a escolher a minha resposta.»

Texto: Filipa Rosa e Mariana de Almeida; Fotos: Impala e reprodução Instagram

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