Nacional
António Pedro Cerdeira

A entrevista completa

Sex, 20/08/2010 - 14:48

O actor revelou que vai fazer uma pausa nas novelas, falou da relação com os filhos e as ex e respondeu por que este ano não tem um amor de Verão.

Tem 40 anos, mais de 20 de carreira. Hoje considera­-se bem pago?
Sim, considero. Tenho a sorte de ter um ordenado superior à maior parte das pessoas e não me sinto mal por isso. Tenho é pena que os ordenados sejam tão baixos. Mas t­enho tido a grande sorte de ter trabalho com regularidade – sei que parte também se deve ao meu mérito – e sou afortunado nesse a­specto.

É poupado ou dado a luxos?
Não muito poupado. Compro imensos livros, invisto no Blu­-ray (nova tecnologia dos DVDs) e quando tenho tempo tiro férias, vou para um sítio bom e aí não me poupo.

Mas tem um pé­de­-meia?
Vou juntando, talvez a pensar nos meus filhos, mas não é nada por aí além. Cumpro com as minhas obrigações e o resto é para usufruir. Se não tivesse obrigações não teria grande pé de meia. Acho que ainda estou numa idade de usufruir, mas é obvio que daqui a uns tempos tenho de pensar num PPR (Plano Poupança Reforma).

Como é a relação com os seus filhos, Lourenço e Afonso?
Brincamos muito. Não gosto nada daquela coisa dos pais convencionais que os filhos tratam por você e o contrário também. Eles são duas pessoas e é assim que devem ser tratados.

Tem medos em relação a eles?
Tenho. Há dois ou três dias estava a ver na televisão um tipo que andava a filmar crianças no Algarve. Desse tipo de coisas tenho medo e sempre que estou com eles tenho determinados cuidados. Tenho também muito medo das fases das saídas à noite e acho que isso têm todos os pais. Ao mais velho, por exemplo, também já disse que motas estão fora de questão.

Tem uma amizade com as mães deles e já o disse várias vezes. Ficou amigo de todas as suas ex?
As mães dos meus filhos são especiais. Claro que há pessoas de quem nos afastamos, mas também não fiquei com má relação com ninguém. Não gosto de alimentar ódios.

O que lhe apetece dizer quando o intitulam de mulherengo?
O que é que eu posso dizer? Já li que tinha namoradas que às vezes nem existiram.

Tem sempre um amor de Verão e este ano não se ouve nada sobre si?
Fico muito contente.

Anda mais discreto, afastou­-se?
São fases. Nunca tive amores de Verão. Já coincidiu com esta estação, mas aconteceu. Se estou livre, interessado, porque não?

Portanto, não está apaixonado?
Não, não estou apaixonado.

Mas à procura da pessoa certa?
Não procuro nada, as coisas acontecem­-me naturalmente. Há alturas em que me apetece estar sozinho, outras acompanhado. Como já disse, são fases.

E incomoda-o o que se escreve sobre si?
Já me incomodou mais. Por exemplo tive duas capas seguidas com cenas de pancadaria que eram mentira e isso incomoda-me. Depois outra que dizia: drogas, violência e morte. Então era assim: as drogas porque me perguntaram se já tinha tido experiências e respondi que sim (parecia que era um toxicodependente em recuperação); a morte porque o meu pai morreu quando eu era novo, como tantos outros perderam os pais (custou-me, mas não fez de mim uma pessoa traumatizada nem um serial killer), e a violência tinha a ver com as  capas anteriores que tinham sido inventadas. E aí irrita-me. Agora a parte das mulheres, de revista para resvista vão mudando de elenco, não me importo.

Gostava de ter mais filhos?
Isso era algo que gostava, mas não tenho esse objectivo. Se acontecer, porreiro... Mas como isto dá tanta volta e de um momento para o outro tudo muda. Eu estou na vida de braços abertos.

Está em ensaios para a peça Hedda que estreia em Setembro no São Luiz...
Sim, é um projecto do Jorge Silva Melo e trata­-se de um texto que ele pegou com o José Maria Vieira Mendes e juntos fizeram uma abordagem completamente diferente. O elenco sou eu, o Marco Delgado, a Maria João Luís ­– que faz a personagem central – a Rita Brutt, a Lia Gama e o Cândido Ferreira. É um encontro de amigos. Estreia em Lisboa dia 16 de Setembro e vamos cá ficar até 20 de Outubro. Depois, iremos para o São João no Porto e, de seguida, para Aveiro.

Quer dizer que não está escalado para nenhuma novela nos próximos tempos?
Não. Estou ligado à TVI, tenho feito projectos uns atrás dos outros e houve a hipótese vaga de entrar neste trabalho do Vilhena. Mas, quer conclusão minha quer do André (Cerqueira) e da estação, seria bom fazer agora uma pausa durante algum tempo.

O Meu Amor ainda está no ar e uma vez mais faz de vilão. Porquê? É porque tem cara de mau?
(risos) Eu não os peço, mas sabe que são os piores papéis? Mas também são os melhores. Os protagonistas de novela e os bons não me interessam. São burros, ingénuos, naïfs, andam uma novela a ser enganados e não passa dali. Irritam­-me! Num vilão, há sempre mais liberdade de inventar e eu gosto de papéis de composição. Mas já fiz de bonzinho.

Que opinião tem sobre a nova geração. Temos bons actores?
Sinceramente, não acho. A maior parte são pessoas que vêm para este meio pelas razões contrárias. Vê­-se pessoas que fazem delas próprias, e mal, convencidas que são as supra­-sumos, as Laurence Olivier e já com uma postura e uma arrogância que me irrita particularmente. Isto tem de se trabalhar muito, não é só aparecer nas festas, revistas e fazer presenças em bares. Esse é o lado mais vazio.

Já trabalhou com essas pessoas?
Já e, apesar de tudo, tenho tido sorte. Há uns anos, os mais velhos do teatro diziam que só se era considerado actor ao fim de dez anos.  Estes têm seis meses de experiência e julgam­-se os maiores. Há pessoas com quem tenho trabalhado e a quem nem ligo. Mas também há pessoas novas com talento. Lembro­-me, por exemplo, da Joana Pereira da Silva e do Cristóvão Campos.

Lembra-se do primeiro dia em que piso o palco e do seu primeiro ordenado?
Lembro. A primeira vez que pisei o palco foi com a minha madrinha do teatro - a madrinha é aquele que dá a primeira deixa - que é a Alexandra Lencastre. Tinha 21, 22 anos e foi Teatro Experimental de Cascais. Estava a tirar  um curso de formação de seis meses, depois fiquei a estagiar e fui convidado para ficar na companhia. Ganhava 30 contos.

Como viu a saída de José Eduardo Moniz e de Gabriela Sobral da TVI?
Todos nós tivemos muita pena. Tínhamos muito carinho da parte do Moniz, um grande apoio, ele era muito disponível, assim como a Gaby. Mas é a lei do mercado. A SIC está a voltar a apostar na ficção e a chamar actores. Inclusive convidaram­-me. Em termos práticos, não notámos a saída deles, porque o trabalho desenrola­-se da mesma forma, e temos o André muito presente, mas isso sempre tivemos.

O que o prendeu a Queluz?
Já tinha contrato com a SIC e ia assinar. Depois, tive uma conversa com o Moniz, expliquei­-lhe a minha insatisfação ­– e não tinha que ver com dinheiro, porque fiquei a ganhar menos do que se tivesse ido para a SIC, mas com o facto de, por vezes, sentir­-me mais sozinho ou não tão acompanhado. Algumas coisas mudaram, eu fiquei e foi bom.

Aceitava participar num Big Brother Famosos?
Sabes o que fiz na altura do Big Brother. Liguei para vários colegas a convidá-los, com cachet e tudo e houve alguns que aceitaram (risos). Era incapaz de participar, acho que o primeiro foi uma curiosidade e foi o único que fez algum sentido. Não tenho nada contra nem a favor, mas não me convidem. se o fizerem só gastam um telefonema.

Tem irmãos?
Tenho uma irmã mais nova. Temos uma relação muito boa, não a vejo muitas vezes porque ela é casada e tem um filho.

E como se dá a sua mãe? É um menino da mamã?
Sou um bocadinho em algumas coisas, mas porque são elas (a minha mãe e irmã) que fazem de mim assim. Por exemplo, moro a dois minutos de casa da minha mãe e até sou uma pessoa arrumada, mas ela faz questão de tratar da minha roupa e depois acabo por ir lá jantar muitas vezes.

E sempre foram assim unidos?
Acho que ainda não houve um dia da minha vida em que não falasse com a minha mãe.

Ela foi mãe e pai?
Sim um bocadinho. E com a morte do meu pai ficámos os três muito ligados. Esteja onde estiver, em qualquer parte do mundo, não há dia em que não ligue à minha mãe.

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