Nacional
Ângelo Rebelo

'A culpa é minha?'

Qua, 30/11/2011 - 16:25

O cirurgião plástico dos famosos fala pela primeira vez do que o levou a terminar o casamento de cerca de dois anos com Isabel Angelino. E recorda o pai, que o abandonou e que só voltou a ver “no caixão, no funeral dele, há pouco tempo”.

É provavelmente o cirurgião plástico mais respeitado do País. Pelo menos, é o mais conhecido. Chamam-lhe o cirurgião dos famosos. Acaba de lançar o livro Sinta-se Bem Na Sua Pele. A obra desmistifica a cirurgia estética. Explica-a e aconselha. Quase convida... Casou quatro vezes e há um funeral que não admite que tenha sido marcante. Era o mais velho dos três filhos e a mãe, dona de casa, precisava que ele fosse homem naquele momento. O pai tinha-os abandonado numa Lisboa que, há 50 anos, não protegia ninguém, “sobretudo as crianças”.

Ângelo Rebelo trabalha muito. Já trabalhou mais, mas continua a passar uma média de 12 horas, entre as oito da manhã e as oito da noite, na clínica. É ali que recebe a NOVA GENTE, num sábado. “É o dia da semana de que mais gosto e que costumo aproveitar para estar aqui, ao computador”, a responder ao e-mail e a preparar relatórios. Fala com paixão do ofício e é quase clínico quando o discurso é a vida, passada e presente, e as emoções. “Nunca fui de contar fosse o que fosse da minha vida nem aos amigos”, justifica.

Onde nasceu?
Lisboa. Sou alfacinha de gema. Não só eu, como, tanto quanto me é possível saber, todas as minhas anteriores gerações. Nunca fui à terra... Nas férias, os meus amigos partiam todos e eu ficava sempre. A minha terra é o cimento.

Tem irmãos?
Tenho uma irmã mais velha, do mesmo pai, e um irmão ligeiramente mais novo do mesmo pai e da mesma mãe.

O que recorda da sua infância?
Atribulada, como com quase toda a gente daqueles tempos. Hoje, as pessoas estão mais protegidas, sobretudo as crianças e os ensinos. Apesar de toda a gente continuar a reclamar, se tivessem vivido há 50 anos não sei o que diriam. As coisas aí eram realmente diferentes.

Em que bairro de Lisboa cresceu?
Nasci e cresci na Madragoa, Freguesia de Santos-o-Velho. Não houve confusões de narizes, porque nasci em casa, numa muito antiga que ainda existe. Fiz a escola primária na Lapa, o liceu no Pedro Nunes e depois fui trabalhar. Comecei muito cedo, enquanto frequentava aulas noturnas para trabalhadores-estudantes.

Começou a trabalhar cedo por opção?
Não, não, não. Foi por circunstâncias da vida. Como o meu pai nos deixou muito cedo, amadureci muito. Apesar de ser novo, apercebi-me de que a minha mãe estava a ter algumas dificuldades e decidi ir trabalhar. Tinha 13 anos.

Como foi essa fase?
Comecei a frequentar locais que tinham aulas à noite para trabalhadores. Não era fácil encontrá-los, mas conseguia-se. Eram sítios para jovens e para pessoas já de alguma idade. Eu era o benjamim no meio daquela gente toda. Mais tarde, passei para o Liceu Francês, quando o nível de exigência subiu. Trabalhava durante o dia e à noite estudava.

Fez-se homem cedo?
Sim, muito cedo. As pessoas devem tirar partido das situações e procurar sempre o lado positivo de cada coisa. A endurance de vida que ganhei muito cedo deu-me maturidade para muita coisa que tenho enfrentado ao longo da vida. Se não tivesse sido desta maneira, não teria conseguido ultrapassar algumas etapas que não foram fáceis. A estrutura de base é importante para nos dar forças para continuar.

Guarda rancor ao seu pai por não ter vivido convosco?
Não. O meu pai já morreu. Quando era mais jovem e tive de começar a tomar opções, fui ter com ele e tivemos uma conversa e disse-lhe que se não servia para uma coisa, não serviria para mais nada. E cada um foi à sua vida.

Voltaram a ver-se?
Só voltei a vê-lo no caixão, no funeral dele, agora há pouco tempo. [... silêncio.] Esta vida toda faz-me pensar que não é fácil, não é fácil julgar os outros. Nunca se sabe na realidade o que está do outro lado, o que é que se passou, por que é que as coisas foram assim. Quando fazemos um julgamento, a maior parte das vezes não somos imparciais, porque é difícil ver as coisas.

Ao longo da vida, houve momentos em que lhe fez falta ter pai?
Gosto de fazer comparações e, com o devido respeito, é exatamente como com os cegos. A pessoa nasce invisual e não dá por isso. É um estado natural e que é assim mesmo. Se se perde a visão pelo caminho talvez seja diferente... O meu pai não me fez falta nenhuma. Tanto que ele morreu e eu não senti nada por isso. Seria diferente se tivesse tido um pai presente toda a vida...

Teme que o achem frio?
Não sei. Hoje em dia os valores sociais e familiares estão de tal modo distorcidos que sempre disse aos meus filhos para não se preocuparem por terem pais separados, porque na escola o que é raro é haver o contrário. De maneira que isto está tudo ao contrário. Cada um tem de optar pela forma que achar mais correta. Separação é separação e nós quando temos crianças, que não nos pediram para vir para cá, temos uma obrigação moral de fazer o melhor possível por elas.

É um pai presente?
Fui ausente algumas vezes nas vidas dos meus filhos, mas foi sempre uma falsa ausência, porque fui mais presente, tenho a certeza, do que os que estão todos os dias ali agarrados aos filhos e não fazem mais nada. Fiz muita coisa e continuo a fazer, ainda hoje. Quando é que descobriu a sua vocação? Nestas coisas, nem sempre tem de haver fundo genético.

O que faziam os seus pais?
O meu pai era comerciante e a minha mãe doméstica. Nunca tive médicos na família, nem nos amigos. Em miúdos, temos sempre aquelas brincadeiras, uns gostam de ser isto outros aquilo, mas não fui bem por aí... Antes de descobrir a medicina, tive uma experiência como músico. Nessa fase em que comecei a trabalhar, tive lições de viola e passado algum tempo estava integrado num conjunto musical, os Vikings, o que sobrecarregou mais ainda a minha vida porque tinha de fazer três coisas – trabalhar, estudar e tocar.

Gostou dessa fase?
Era bom. Extremamente cansativo porque tinha os ensaios e atuávamos sexta e sábado à noite e domingo à tarde e à noite. Mas era bom porque mesmo trabalhando e estudando era como um escape e um alívio. Ao fim de uns anos ressenti-me. Fisicamente, estava muito cansado. Durou seis anos, até casar.

Era uma coisa ou outra?
O pai da minha mulher disse-me “para casares, tens de deixar o conjunto”. E deixei. As pessoas que tocavam nos conjuntos naquela altura eram mal afamadas. Ainda por cima, a minha mulher era filha única... Teve que ver com isto, mas principalmente porque nessa altura começou-me a aparecer a medicina. Que idade tinha? Foi depois dos 18, quando comecei a trabalhar num hospital. Entrei para o IPO a 20 de março de 1972.

Com que funções?
Preparador de laboratório de medicina nuclear. Era muito interessante, sobretudo porque quem tivesse um bocadinho mais de consciência não queria trabalhar para aquilo, por causa do perigo das radiações, mas eu queria era entrar num hospital nem que fosse para me porem a varrer o chão. Penei muito.

Como é que foi parar ao IPO?
Tinha amigos lá que me disseram que havia uma vaga. Não se imagina a quantidade de vezes que fui lá para tentar falar com o administrador... Chegava à secretária dele, e ela dizia-me “agora não pode, está numa reunião”. Esperava não sei quanto tempo até ela me dizer “olhe, afinal não pode ser hoje, volte noutro dia”... Bem, fui lá ‘N’ vezes até ele me atender.

E como foi quando finalmente o recebeu?
Expliquei que queria trabalhar no hospital, fosse no que fosse. Ele simpatizou com o meu discurso de miúdo e falou-me no laboratório de medicina nuclear, embora me tenha avisado de que ninguém queria ir para lá... Depois falei com o diretor do laboratório, que era o professor António Manuel Batista.

Como é que o convenceu?
Na altura, havia aquele momento em que se optava por Letras ou Ciências e eu estava dividido. Paguei para fazer o chamado curso psicotécnico, no Largo da Misericórdia, ainda me lembro... O resultado dava, nitidamente, Ciências. Levei esse relatório, esse teste psicotécnico. Ele ficou doido. Um puto que lhe apareceu a dizer que queria trabalhar ali porque, ainda por cima, tinha aptidões. E disse-me que ficava a trabalhar com ele. Fiquei lá cinco anos, enquanto frequentava a Faculdade de Medicina. Sou daqueles que pertencem ao grupo dos que não devem nada a ninguém. O Estado nunca me pagou nada, porque fiz tudo à minha custa.

É um orgulho?
Não sei. É uma postura. É a vida. Entretanto, tinha conhecido a sua primeira mulher. Sim. Conheci-a muito cedo. Pertenço a uma geração em que se casava muito cedo, muitas das vezes para fugir de casa. Uma estupidez... Que no seu caso nem se colocava. Não, não se colocava. Antes pelo contrário, mas foi a influência da altura. Conheci a minha mulher, gostei dela, casámos e tivemos dois filhos. É dois anos mais velha do que eu. Foi a única mais velha, a partir daí foi a hecatombe completa.

Algum dos seus filhos foi para medicina?
Nenhum. Somos um país distorcido em muita coisa, nomeadamente nas profissões que as pessoas ocupam. Estou certo de que 80 a 90 por cento das pessoas não estão satisfeitas com o que estão a fazer, por força das imposições políticas e educacionais. Nos países de facto evoluídos as pessoas podem realmente optar por aquilo que querem. Ainda hoje se ouve dizer-se “gostava de ir para medicina, mas não tenho nota para entrar”. É uma estupidez. Os critérios de admissibilidade são obsoletos, absurdos e ultrapassados. Há imensos anos em muitos países, as pessoas têm exames básicos e linhas de opção direcionadas. Nós temos engenheiros que não querem ser engenheiros (se calhar por isso é que caem as pontes), médicos que não gostam de ser médicos, em especialidades para as quais não estão vocacionados, enfim... Chegam ao absurdo de escolherem especialidades para não saírem muito da zona onde moram... E depois dizem que há falta de médicos e vão contratá-los à Colômbia e a Porto-Rico. É política pura, absurda.

A sua filha mais nova, que é do seu terceiro casamento...
Tem 18 anos e acabou de entrar para uma coisa que ela também não queria (cá temos outro exemplo), que é farmácia, porque não teve nota para medicina.

Do segundo casamento não teve filhos.
Não.

Nem história?
Não... Foi tranquilo... Bem, os meus casamentos...

O primeiro durou quanto tempo?
Aí à volta de sete anos. O segundo não tanto. Teve um intervalo em que estivemos separados, depois reatámos, mas sem grandes histórias. O terceiro casamento também durou à volta de sete anos, com uma separação atribulada... Quando há filhos é sempre mais complicado, por causa dos poderes paternais. Enfim, mais uma das coisas do nosso país e do sistema judicial que, quando há crianças metidas no meio, é uma complicação com as divisões, as horas, os dias, parece que se está a tratar de objetos.

Pensa-se nos pais e não nos filhos?
Não. Acho que se encapotam nos filhos, mas não me parece. Baseiam-se em critérios ‘chapa-dois’ aplicados a toda a gente. Parece que ultimamente estão a modificar as coisas, tal como com os divórcios. Tive um divórcio atribulado que se fosse hoje não o teria sido, porque, mesmo não havendo comum acordo, deixa de fazer sentido que uma das partes continue obrigada a estar casada mesmo que não queira. Um absurdo que durou anos e anos e anos e anos...

São precisos dois para dançar o tango.
Sim. As coisas têm de melhorar e de se adequarem aos tempos modernos e à vida das pessoas. As coisas vão andando.

Casou mais uma vez.
Casei com a Isabel [Angelino] e descasei da Isabel.

Quando as pessoas se separam é um insucesso?
Não. Tem que ver muito com o tipo de sociedade em que vivemos e com o tipo de vida que temos. Felizmente há pessoas que festejam 50 anos de casamento, coisa que nas gerações atuais nunca vai acontecer. É o estado de vida das pessoas que talvez tenham mais liberdade para que, ao acharem que se uma coisa não está bem, com mais facilidade o assumam e tomem outras atitudes. Muita gente no passado esteve mal casada durante muitos e muitos anos. Mulheres e homens que passaram as passas do Algarve por acharem que desfazer um casamento era uma coisa que era impossível. Então tinham de manter a situação. Deve ser horrível... Até fruto do meu lado profissional constato isso. Tenho pacientes que desabafam e que tiveram uma vida de casadas que... não tiveram vida. À partida deve haver um mínimo de vontade e de confiança para que aquilo resulte. Nenhuma das partes terá interesse em andar a casar e a descasar, até porque em sociedades como a nossa não é fácil. Em 2011, em Portugal, não é fácil ter casa... As pessoas pensam “casei, arranjei um ninho, tenho a nossa casinha”... Quando se separam, quem é que fica com a casa? Um dos lados vai ter de arranjar casa. E capacidade financeira? A conjuntura socioeconómica não está fácil. Continuamos com ordenados mínimos miseráveis... Como é que alguém com o ordenado mínimo consegue alugar casa? Não sei... Portanto, todos estes fatores pesam para que muitas vezes as pessoas tenham de ponderar muito antes de se unirem ou se desunirem.

A atual sociedade, exigente, veloz e voraz, estará na base na falta de tempo para o casal?
Também um bocado, mas tempo arranja-se sempre. As pessoas podem fazer a gestão do tempo. Já trabalhei muito mais do que trabalho agora e tive sempre tempo para fazer a minha vida. É certo que a sociedade é veloz e voraz, mas também se tornou mais cómodo evitar os valores do que lutar por eles, para mantê-los, e aproveitam-se os chavões como o da crise, “estamos em crise”... Desculpas...

Por que é que se separou da Isabel Angelino? Ela não sabe …
Em nenhum dos outros casamentos falei em razões especiais para haver separação. Tal como neste. As pessoas separam-se porque têm de se separar. Não há um motivo particular, como nunca houve nos anteriores casamentos... É a vida. É um conjunto de fatores, uns para um lado e outros para outro, que levam as pessoas a decidir unilateralmente ou bilateralmente que é assim que tem de se fazer. Mas não invoco razões nenhumas particulares em nenhuma das situações.

Não explica as suas decisões?
As coisas são como são. As vidas são como são. Tive quatro casamentos oficiais e outras intercorrências que foram casamentos sem papel assinado. É a vida das pessoas... Tem que ver comigo. A culpa é minha? Provavelmente é! Tem que ver com a minha personalidade? Provavelmente sim. Tem que ver com o tipo de profissão que tenho? Também. Provavelmente é um bocadinho de cada coisa que leva a que tenha acontecido assim. Nunca me vangloriei por ter tido não sei quantos casamentos, nunca ninguém viu essa postura da minha parte. Obviamente, o ideal é haver esses casamentos com 50 anos, em que partilharam a vida e que constituíram família, no sentido tradicional do termo.

Gostava de ter uma dessas famílias tradicionais?
Eu ainda tento juntar a família, no Natal, mas um dia por ano... Consegue-se juntar a família, ou o que resta da família, mas cada pessoa é como cada qual e a mim tocou-me ser assim, não digo felizmente nem infelizmente.

União e separação são ambos caminhos para a felicidade?
Tem que ver com muita coisa, entre elas o bem-estar da pessoa. As coisas acontecem porque há uma série de circunstâncias, a maior parte delas abstratas, que não se consegue objetivar. Apesar de tudo, não me arrependo de nada do que fiz até hoje.

Não tem lamentos?
Gostaria de ter visto os meus filhos crescerem ao pé de mim e de os ter educado de uma maneira um bocado diferente e se calhar de ter tido outro tipo de família. Se isso não aconteceu, não aconteceu, mas não deixo de estar presente sempre que necessário, com cada uma das pessoas com quem vivi, tanto no papel de pai como no de marido.

Reatou a relação com a Isabel Angelino?
Não digo nada.

Não?
Não. Desde que as coisas apareceram em termos de notícias, não houve um comentário meu porque preservo a minha vida privada. Faz parte da minha personalidade. Não gosto de mediatismos. Desde miúdo que sou recatado. Nunca sequer disse aos amigos que ia casar ou que tinha encontrado a ‘não-sei-quantas’ ou que agora me ia separar. Sempre tive esta postura e vou mantê-la. Uma vez mais.

Quem é o paciente-tipo de um cirurgião estético?
Deixou de haver padrão, felizmente. O que significa que há mais abertura por parte das pessoas.

Alguma vez foi tabu?
Ainda é, porque muita gente não sabe o que é cirurgia estética. Por um lado, é um ramo da medicina recente, mas, por outro, perde-se nos tempos. Há relatos de cirurgias reconstrutivas de narizes amputados por castigos na Índia, por exemplo, descritos em 1500 antes de Cristo, embora a cirurgia estética tal como a conhecemos hoje tenha dezenas de anos.

E por que é que é tabu?
O tabu começou quando se levantou a questão de definir o que é que é estético e o que é que isso influi na saúde das pessoas. Ainda hoje ouço com frequência dizerem que não tem que ver com saúde, que tem que ver com ‘vaidosismo’. Luto a nível mundial para que as pessoas percebam que tem que ver com saúde. É uma luta muito grande longe de chegar ao fim. Há hospitais públicos que vedam completamente a possibilidade de as pessoas fazerem este tipo de cirurgias.

Porquê?
Porque se calhar não concordam que estética é saúde. Estou a falar de casos gritantes de pessoas que têm barrigas penduradas ou mamas até à cintura com os consequentes problemas de saúde que eles também conhecem, mas que, por questões de estratégia, de opção, de serviço, não sei, não as fazem. Estética não pode ser desinserida do conceito de saúde. A definição para saúde da Organização Mundial de Saúde é o “bem-estar físico, mental e social”. Todas as pessoas que procuram cirurgia estética têm estas três perturbações. A mulher que não tem mamas tem malformação. Não teve um desenvolvimento normal da mama. Quer queiram, que não, isto é uma doença. A mama demasiado grande é outra. Todas elas têm diagnósticos. As pessoas não vão ao cabeleireiro para serem tratadas. Vão a um médico, a um especialista. Que lhes faz uma consulta médica. Estamos todos dentro da medicina. Há os que dizem “isto não tem nada que ver com saúde”... Claro que tem. Sou médico, especialista em cirurgia plástica, estou a fazer uma consulta médica, estou a fazer um diagnóstico com nomes que fazem parte dos livros e dos códigos internacionais de medicina, como a hipoplasia mamária [insuficiência de desenvolvimento de um tecido ou de um órgão], hipertrofia mamária [aumento anormal das mamas], gigantomastia [desenvolvimento anormal e rápido da glândula mamária], dermolipectomia [cirurgia plástica abdominal], lipodistrofias [anormal distribuição de gordura corporal], abdómen pêndulo [ventre em alforge ou em avental]. Todos têm diagnósticos e como cirurgião vou-lhes propor uma terapêutica, a cirurgia. Todos os dias recebo pessoas com anos e anos de perturbações. Isto tem consequências a todos os níveis. Gostam de falar na crise e na produção? Isto também altera a produção. Não estão bem, não desenvolvem, não produzem, não trabalham como deviam trabalhar. Não se relacionam. Não têm namorados. Tudo é discutível em cirurgia plástica.

Até as idades?
Não há idades e ainda há pouco tempo operei um menino de quatro anos que tinha as chamadas orelhas de abano. Mas há critérios.

Quais?
Saber se as pessoas têm ou não indicação para fazer, diagnosticar, indicar terapêutica e ver se a pessoa sob o ponto de vista geral de saúde pode fazer. A partir daí, devem fazer aquilo que devem fazer e não arrastar. Esperar para fazer a mama até ter filhos... Se nunca fizer a mama, se calhar nunca há de ter filhos. Porque nunca vai ter namorados, porque se esconde, porque anda com roupas até até aos pés, no verão não sai com os amigos... Tenho histórias destas todos os dias. Muitas destas mulheres têm outro problema, a falta de apoios.

No círculo familiar?
E no dos amigos. As pessoas vêm à consulta quase na clandestinidade. Estou muito do lado delas e tenho de lhes dar mais apoio ainda, além do médico, que é o incentivo, o simples “vai fazer porque vais ficar melhor”. Continuamos a ter o fado, a desgraça e as ‘coisas’ a pairar na cabeça. As minhas doentes dizem-me que quando contam a uma amiga que vão colocar próteses mamárias lhes dizem logo “ai, eu conheço uma que fez isso e aconteceu-lhe isto, aconteceu-lhe aquilo”. É a desgraça portuguesa.

Que é que lhes diz?
Para dizerem a uma amiga que vão ser operadas à vesícula e para verem qual é a reação. Têm logo duas ou três histórias de desgraças. Estamos ainda agarrados a este fatalismo que não nos larga.

A Susana da Casa dos Segredos colocou um litro em cada mama. E quer colocar mais. Há um limite?
Há. Obviamente. E nas minhas consultas executo esse limite todos os dias. A Susana, que fui eu que operei, tem o limite tecnicamente possível de executar e que seja possível o seu organismo suportar. Dito assim, parece que foi chegar ali e foi pôr um litro em cada mama. Não! Foram quatro anos de trabalho e quatro cirurgias seguindo princípios técnicos e básicos de cirurgia, que são a expansão dos tecidos. Tenho o cuidado de tentar travar coisas que possam por em perigo a saúde, mas não sou dono das pessoas. Não sou juiz e não tenho direito de dizer “não”. Mas tenho o dever de lhes dizer “não posso”. Até agora, todas as cirurgias que fiz à Susana foram dentro de todas as normas de segurança e os resultados estão à vista. São exagerados? Há quem goste, há quem não goste, mas é o critério de cada um...

Ela quer pôr mais.
Logo se vê. Não vejo a Susana há muito tempo... Ela virá a uma consulta, faço a avaliação dos tecidos, da glândula mamária e vejo se se pode aumentar e quando se pode.

Ela está viciada?
Não. Vício é uma coisa perniciosa. Aceito o termo hábito. As pessoas habituam-se. Pedem-me ajuda. Acho que sim, opero-as. Acho que não, proponho alternativas.

Ela está determinada.
O tipo de próteses que utilizo tem uma recomendação especial da fábrica, que só dá garantia até aos mil centímetros cúbicos. Daí para cima, a fábrica não se responsabiliza por nada. Todas as próteses com volume superior têm de ser sujeitas a um processo de encomenda específica e especial, que exige muitas autorizações por parte do doente, do cirurgião e das empresas envolvidas.

Qual o tipo de cirurgia que as mulheres mais procuram?
Próteses de mama. Até há pouco tempo era a retirada de gorduras.

E os homens?
A retirada de gorduras.

Texto: LUÍS MARTINS; Fotos: NUNO MOREIRA

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