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Escrever Num Blog

Dá dinheiro

Seg, 20/07/2015 - 13:16

Hoje em dia, ser blogger é uma profissão. São várias as pessoas que deixaram os seus empregos para se dedicaram à blogosfera
a tempo inteiro. Para a maior parte dos bloggers, a relação que mantêm com marcas conhecidas tem um enorme retorno financeiro, mas tudo pode mudar nos próximos meses, incluindo para os famosos nacionais que apostam nas redes sociais...

Ao longo dos últimos anos em Portugal, o fenómeno dos blogs transformou-se de uma espécie de diário pessoal para um lucrativo negócio, que vive das experiências e capacidade de comunicação dos autores. Apesar de não existirem dados conclusivos sobre o número exato de blogs criados no nosso país, é possível constatar que a tendência para aderir ao blogging tem aumentado, e que, tal como em outros países, é possível dar um cunho profissional ao que se comunica, com as marcas a apostarem em novos meios de product placement, através de opinion makers capazes de influenciar milhares de pessoas.

Recentemente, temos assistido ao aparecimento de novos blogs criados por personalidades conhecidas, como Cristina Ferreira, Katia Aveiro, Cláudio Ramos ou Jessica Athayde, que rapidamente cativam a atenção dos internautas e permitem às grandes marcas apostar num novo formato de marketing, mais barato do que o tradicional e, porventura, mais eficaz. E a idade é irrelevante. Vejamos o caso de Danielle Bernstein. A jovem de 22 anos, que é autora do blog We Wore What, conta com milhões de seguidores espalhados nas redes sociais, onde publica várias fotos com roupa que utiliza, acompanhada de descrições detalhadas bem como a indicação dos locais onde o visitante pode comprar as peças. Por isso, recebe entre 450 e 4500 euros das marcas de roupas que enverga.

A revista Harper’s Bazar – conhecida no mundo da moda e lifestyle – analisou o caso de sucesso de Danielle e comprovou que a maior parte dos posts que publica são o resultado de negociações entre a autora e as marcas, e os valores envolvidos variam de acordo com a sua esfera de influência. “Em média, se tiver centenas de milhares de seguidores, pode receber entre 450 a 4500 euros [aproximadamente] por publicação; mas, se tiver mais de seis milhões de seguidores, pode receber entre 18 000 a 90 000 euros [aproximadamente] por foto”, escrevem na reportagem. A nível internacional, acredita-se que as grandes marcas mundiais gastam cerca de mil milhões de euros com os mais influentes membros da comunidade blogger, que durante anos conquistaram a confiança dos leitores, traduzindo-se numa capacidade única de influenciar os seus costumes – particularmente os hábitos de consumo – a nível digital, onde a monitorização é fácil e tem efeitos imediatos.

As várias possibilidades para fazer dinheiro

Vamos então à pergunta que realmente importa: como é que se faz dinheiro com umas frases na Internet? Primeiro, é preciso ter noção de que não são apenas “umas frases”. Um blog é uma eficiente plataforma de comunicação, trabalhada pelo seu autor, de quem depende inteiramente.

E engane-se quem pensa que apenas as celebridades têm capacidade de tirar rentabilidade económica de um blog. “Isso é mentira”, começa por dizer Francisco Gautier, diretor-geral da The Blog Agency. “Na nossa agência, trabalhamos com pessoas que têm tido um enorme sucesso online e que não são figuras públicas. O crescimento dos seus blogs deve-se à dedicação e ao valor acrescido que veem no projeto. Posso dizer-lhe que alguns dos nossos agenciados vivem praticamente dos rendimentos que tiram dos blogs.

Alguns até já não têm outros trabalhos, porque acabam por ganhar quatro ou cinco vezes mais com o blog”, garante. Mas como? O principal fator é a parceria com marcas que apostam neste mercado como um método de marketing, mais barato e mais eficaz do que o tradicional.

Ao pagar a um blogger para falar de um determinado produto, a marca está a apostar na influência que o autor tem perante o seu público, e isso é facilmente verificável através de ferramentas de monitorização online que analisam ao pormenor as escolhas dos internautas, desde os page views ao número de cliques. A utilização de banners também é uma fonte de rendimento normalmente utilizada por bloggers e sites, bem como os affiliate links, que são programas fornecidos pelas empresas e que identificam quando um leitor clica num link para o produto e o compra, permitindo ao autor receber uma comissão sobre a venda. No entanto, o futuro está prestes a mudar...

As mudanças do novo  Código de Publicidade

Previsto pelo Ministério da Economia, o novo Código de Publicidade é uma medida que o Governo pretende aplicar ainda nesta legislatura. O objetivo é unir num único texto legal as regras avulsas, e atualmente dispersas por 17 diplomas, que dizem respeito às normas de publicidade.

Para os blogs, as regras mudam bastante. Até agora, os posts pagos não tinham de ser anunciados aos leitores, cabendo aos seus autores a escolha de informar quem os lê, de que não se trata de uma opinião pessoal, mas sim de uma opinião paga. Agora, o novo diploma introduz a obrigatoriedade de identificar nos sites e blogs (mesmo aqueles que não são assinados por jornalistas) os posts que trazem ao autor contrapartidas financeiras ou materiais, sob a aparência de opinião pessoal de quem a transmite. As opiniões dividem-se.

Para Ana Garcia Martins, esta é uma medida que só beneficia o público. “Aplaudo de pé esta medida e acho que só peca por tardia. Os leitores merecem saber o que é publicidade”, referiu no seu blog A Pipoca Mais Doce.

Também Inês Mendes da Silva – dona da agência de blogs Luvin, que conta na sua carteira de clientes com sites como o Daily Cristina, Oficina Poeiras e O Nosso T2 – vê a medida como um aspecto positivo. “Não podia estar mais de acordo com a medida.

É muito importante clarificar as coisas”, referiu publicamente. Para Francisco Gautier, a decisão visa clarificar a relação dos bloggers com as marcas e com a transparência da comunicação que é feita ao leitor. “Na nossa agência, aconselhamos sempre os autores a serem transparentes com o seu trabalho e, principalmente, com os leitores. Se é pago, então é pago. A publicidade existe tal como o product placement e o autor deve respeitar a noção que o leitor tem disso, bem como as impressões que retira daí”, conclui. Contudo, a questão não está encerrada e o tema continua a causar discussão entre os bloggers nacionais, nomeadamente no processo de fiscalização.

“Como é que vai ser possível saber ao certo o que é pago ou não?” – é esta a grande pergunta que se coloca. Num mundo tão vasto como a Internet, e ao mesmo tempo tão anónimo, as autoridades terão grandes dificuldades em perceber que conteúdos foram pagos ou influenciados por marcas. Por agora, uma coisa é certa: o que começou por ser um hobby transformou-se num negócio de milhares de euros, com subtileza e muita finesse.