Documento
Acidente Vascular Cerebral

10 Perguntas, 10 Respostas

Seg, 02/01/2017 - 18:00

É a primeira causa de morte e de incapacidade em Portugal, sendo que a prevenção é o melhor de todos os remédios. É muito importante saber identificar os sintomas, pois as primeiras horas após ter ocorrido o AVC são determinantes para a recuperação e a vida do paciente. Para evitar que volte a suceder, exige-se tratar as causas que deram origem ao primeiro acidente: medidas terapêuticas medicamentosas e de mudança de comportamento no estilo de vida.

A Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral (SPAVC) reforça a mensagem escolhida pela World Stroke Organization (WSO) para o ano de 2016: o AVC é prevenível e tratável. Em dez respostas curtas para dez perguntas frequentes, os especialistas da SPAVC explicam, passo a passo, como prevenir, tratar e agir perante um AVC.

1. Qual o órgão responsável pelos sinais resultantes de um AVC? 

Prof. Doutor José Castro Lopes (Neurologista e presidente da direção da SPAVC) - Quem estiver atento à denominação de acidente vascular cerebral facilmente descobre que é o cérebro que sofre em resultado de uma deficiente chegada de sangue às diferentes células que o constituem.

Se é tão evidente porque se torna necessária a pergunta?

Razões históricas, em meu entender, muito respeitáveis, levaram à inclusão da doença vascular cerebral nas doenças cardiovasculares. Nada mais errado. A classificação internacional das doenças (10.ª revisão) separa bem dentro do capítulo das doenças do sistema vascular a doença vascular do cérebro, do coração, das grandes artérias que se dirigem através do abdómen para os membros. A designação cardiovascular só se deve aplicar à doença vascular do coração. O mesmo para a designação dos fatores de risco para as doenças vasculares: não são fatores de risco cardiovascular mas fatores de risco vascular. Para aprender e também para ensinar, a utilização de uma nomenclatura correta é essencial. Protejamos o cérebro do AVC!

2. Quais são os sinais do AVC?

Prof.ª Doutora Patrícia Canhão (Neurologista no Hospital de Santa Maria e vice-presidente da diração da SPAVC) - Os sinais de um AVC surgem de forma súbita e dependem do local e da extensão do cérebro que é afetada. Os principais sinais podem ser lembrados como os “3 F”: Face – Força – Fala.

  • A face pode estar desviada para um lado, a boca ficar descaída e a pessoa pode não conseguir fazer os movimentos normais com esse lado da cara, como mostrar os dentes ou sorrir.
  • Pode haver diminuição de força de um braço e o doente pode não ser capaz de levantá-lo de uma forma normal, ou de o manter elevado durante algum tempo.
  • A fala pode estar arrastada ou a pessoa pode mesmo não conseguir emitir nenhum discurso, ou este ser difícil de compreender.

Estes sinais identificam a maior parte dos doentes com AVC. Se estiver na presença de alguém com algum sintoma sugestivo de AVC, deverá ligar de imediato para o 112, para ser encaminhado de forma célere para um centro onde se possa disponibilizar o tratamento adequado.  

3. O AVC pode ser prevenido?

Prof. Doutor Vítor Tedim Cruz (Neurologista do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga e secretário da direção da SPAVC) - Sim, e todos os dias contam! Para o conseguir pode começar por lhe dedicar a próxima semana. Aprenda a fazer algo importante em cada dia. Não fume em nenhum desses dias.

  • 2.ª feira – registe o peso e descubra qual o ideal.
  • 3.ª feira – registe a tensão arterial.
  • 4.ª feira – caminhe 30 minutos.
  • 5.ª feira – verifique se tem comido com pouco sal e reveja a dieta dessa semana. Se houver falhas, os próximos dias servem para corrigir.
  • 6.ª feira – partilhe os registos do peso e tensão arterial com alguém que se preocupe consigo.
  • Sábado – caminhe mais 30 minutos, converse e visite amigos e família.
  • Domingo – utilize o seu cérebro. Reveja se tem cumprido as indicações da última consulta de prevenção. E prepare a próxima, onde pode perguntar pelo peso ideal, hipertensão, diabetes, fibrilação auricular, dislipidemia, entre outros.

Depois, só tem de aprender a repetir tudo o que aprendeu ao longo do ano. Na certeza de que todas as semanas contam para prevenir o AVC! 

4. Como proceder quando suspeita do aparecimento de um AVC?

Prof.ª Doutora Elsa Azevedo (Neurologista do Hospital de São João e vice-presidente da direção da SPAVC) - De repente sente-se diferente ou nota uma diferença súbita em alguém ao seu lado. Poderá ser um AVC? Se for, deve chegar rapidamente ao hospital adequado, porque o tratamento mais eficaz é nas primeiras horas! Três testes simples vão ajudar a confirmar! Veja como estão os “3 F”:

  • 1.º F – Fala – teste algumas frases. A pessoa deixou de conseguir dizer o que parecia querer ou fá-lo de forma arrastada, pouco percetível?
  • 2.º F – Face – peça para a pessoa sorrir, mostrar bem os dentes. A cara fica desviada para um dos lados?
  • 3.º F – Força – falta de força num lado – estique ambos os braços da pessoa para a frente. Há um que não aguenta tão bem e cai?

Se encontrar qualquer um destes 3 sinais de alerta de AVC, o que fazer?

  • Ligue para o 112 a pedir ajuda! O INEM orientará para o hospital mais adequado, onde o diagnóstico será confirmado e o tratamento efetuado.
  • Procure ter as respostas para o que o INEM lhe vai perguntar: Morada/local exato onde está, para que a ambulância o encontre rapidamente.
  • Quais os sinais de alerta de AVC que detetou.
  • A que horas surgiram esses sinais, caso tenha presenciado desde o início. 

5. É verdade que a maioria dos AVC não causa dor?

Prof.ª Doutora Catarina Fonseca (Neurologista do Hospital de Santa Maria) - Sim. O tipo de dor que mais frequentemente pode surgir associada ao AVC agudo é uma dor de cabeça. Esta ocorre em aproximadamente 30% dos doentes com AVC. A dor de cabeça aparece mais frequentemente nos AVC hemorrágicos, associados a rutura de um vaso, do que nos AVC isquémicos, associados à oclusão de uma artéria. Quando aparece uma dor de cabeça associada ao AVC é geralmente uma dor que é diferente da que a pessoa costuma ter. Existem outros sintomas além da dor de cabeça, tais como boca ao lado, dificuldade em falar ou falta de força num braço, que são mais frequentes num AVC. Se notar o aparecimento destes sintomas ou se tiver uma dor de cabeça súbita muito forte, a mais intensa que alguma vez teve, deverá telefonar imediatamente para o 112.

6. O AVC também afeta crianças?

Dr.ª Rita Lopes da Silva (Neurologista pediátrica do Hospital de Dona Estefânia) - O AVC é uma entidade mais rara na criança do que no adulto. Pode ocorrer na gravidez, nos primeiros dias após o parto ou mais tarde na infância e adolescência.

As causas do AVC são diferentes, destacando-se as doenças cardíacas, hematológicas e infecciosas.

A apresentação clínica mais frequente do AVC isquémico é a hemiparesia aguda (falta de força em metade do corpo). Existe habitualmente um atraso significativo no diagnóstico (por vezes mais de 24 horas), devido ao não reconhecimento das manifestações iniciais por parte da família e profissionais de saúde, e estas serem atribuídas a outras doenças mais comuns (enxaqueca, epilepsia e infeções).

Após um AVC, as crianças geralmente recuperam melhor e mais rapidamente.

Contudo, as sequelas motoras, cognitivas e comportamentais são valorizáveis (défice residual em 40-60%) e a mortalidade pode atingir 10-25%.

7. Quais são as consequências mais imediatas do AVC?

Dr. Miguel Rodrigues (Neurologista do Hospital Garcia de Orta e tesoureiro da direção da SPAVC) - Há consequências visíveis:

  • Falta de força de um lado do corpo;
  • Dificuldade em falar;
  • Dificuldade em engolir;
  • Falta de equilíbrio ou coordenação;
  • Dificuldade em controlar urina ou fezes.

Outras consequências são notadas pelo doente:

  • Dificuldade de visão;
  • Mais cansaço;
  • Dormência ou formigueiros em metade do corpo;
  • Dor, pelos problemas físicos do AVC ou pela lesão no cérebro, com dor tipo picada, frio ou queimadura.

Há alterações que são percebidas pelos próximos:

  • Dificuldade de comunicação (falar, compreender, ler ou escrever);
  • Dificuldade de memória ou raciocínio;
  • Dificuldade em lidar com emoções;
  • Alterações de comportamento.

Os sintomas após AVC são frequentes, com impacto pessoal, familiar e social. É normal sentir que a vida pessoal ou sexual está diferente. Fale com o seu parceiro, procure o médico ou apoio psicológico.

Não seja a próxima vítima, aprenda a prevenir o AVC e saiba os sinais de alarme para ligar 112!

8. Os doentes com AVC têm a reabilitação necessária?

Dr. António Pinto Camelo (Fisiatra do Centro Hospitalar do Porto) - A resposta é simples: Não, de todo. Após o enorme investimento inicial em meios técnicos e humanos efetuado nos Serviços de Urgência, Cuidados Intensivos, Unidades de AVC, Serviços Hospitalares Especializados, o doente passa a ser algo de indesejável, gerador de despesas que ninguém quer assumir, e vê o seu estatuto modificar-se para “doente de segunda categoria”. O que é o doente de “segunda categoria”? É o doente com uma patologia crónica e que necessita de cuidados, para melhorar a sua situação funcional ou para impedir que esta se agrave. É o doente que necessita de mais do que medicamentos para o tratamento correto dos seus problemas. Os entraves são imensos:

  • Normas pseudocientíficas emanadas pelas diversas entidades com competência de gestão/regulamentação apenas com objetivo de “poupança”;
  • Enormes dificuldades na obtenção de credenciais para acesso a tratamentos;
  • Dificuldades no acesso a transporte de ambulância;
  • Taxas moderadoras exorbitantes;
  • Entraves à prescrição de ajudas técnicas;
  • Internamento em instituições sem competência técnica para este tipo de patologia.

Tudo se conjuga para impedir que o doente com sequelas de AVC consiga atingir o máximo de recuperação funcional possível e se mantenha nesse nível máximo! O tratamento correto é gerador de poupança e não de despesa:

  • O indivíduo com sequelas de AVC será globalmente mais saudável, mais ativo, com menos complicações médicas, mais independente no seu dia a dia.
  • Terá menos sofrimento – terá enfim melhor qualidade de vida. 

9. É verdade que o AVC é a principal causa de morte em Portugal?

Dr. Fernando Pita (Neurologista no Hospital de Cascais) - A resposta é simples… Sim.

Em 2014 ocorreram em Portugal 105.219 óbitos. Morreu-se principalmente por doenças do aparelho circulatório, 32.288 óbitos, 30,7% do total, 11.808 por AVC e 7.456 por doença isquémica cardíaca.

Os tumores malignos foram, globalmente, a segunda principal causa de morte, 26.220 óbitos, 24,9% do total.

Sem resposta simples à razão pela qual, em Portugal, ao contrário dos outros países mediterrânicos, se mantém o AVC como principal causa de morte. Como hipótese o elevado consumo de sal (o dobro da dose recomendada pela OMS) e a alta prevalência de hipertensão arterial (HTA).

Boa notícia: Ao longo dos anos tem-se verificado um decréscimo progressivo e consistente do AVC como causa de morte, 46% numa década.

10. Sofrer de um AVC contribui para vir a ficar com demência?

Prof.ª Doutora Ana Verdelho (Neurologista do Hospital de Santa Maria) - Sim, ter um AVC duplica o risco de demência. Cerca de 1/3 dos doentes sobreviventes a um AVC desenvolve demência entre um a quatro anos após o AVC. Este risco é maior em doentes com mais do que um AVC, com AVC mais graves e é também maior naquelas pessoas que antes já tinham algum tipo de queixa ou dificuldade cognitiva. O AVC aumenta não só o risco de se ter demência vascular, mas também aumenta o risco de desenvolver doença de Alzheimer. Acresce ainda que após um AVC pode existir perda de capacidades cognitivas que não implique dependência em atividades fundamentais e, como tal, não corresponda a demência, mas que já constitui diminuição da capacidade cognitiva. Os sintomas do defeito cognitivo vascular não são frequentemente reconhecidos como tal, como a diminuição da iniciativa, a lentificação do processamento mental e motor, a dificuldade na tomada de decisões, a alteração da personalidade. Não há terapêutica específica dirigida ao defeito cognitivo vascular nem à demência vascular, com exceção da prevenção adequada e atempada da doença vascular cerebral e do AVC. Para prevenir é fundamental incentivar o controlo rigoroso dos fatores de risco vasculares em cada indivíduo. Este controlo, através de mudanças no estilo de vida e medicação, deve iniciar-se muito precocemente na vida da pessoa e manter-se após o diagnóstico de qualquer dos fatores de risco vasculares, incluindo o próprio AVC.

AVC EM NÚMEROS:

  • Em todo o Mundo 1 em cada 6 pessoas sofrerá um AVC.
  • A cada ano 16,9 milhões de pessoas em todo o Mundo sofrem o seu primeiro AVC e delas cerca de 1/3 não sobrevivem.
  • Em todo o Mundo 33 milhões de pessoas vivem com as consequências de um AVC.
  • Os acidentes vasculares cerebrais representam um elevado custo económico para o País. Em Portugal cada pessoa com AVC custa por ano € 5800.

Fotos: D.R.


NG top Documento